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Do celular à narrativa própria: Como começamos a descentralizar a comunicação com os jovens da comunidade na Ocupação Vitória em BH.

Foto do escritor: Liss7 Cosmo
Liss7 Cosmo
18 de out.
3 min de leitura

Atualizado: 22 de out.


Nos últimos anos, temos visto como a comunicação ganhou relevância nos projetos do Terceiro Setor e da Cultura, não só como um meio de transmitir uma mensagem, mas também como um processo de prestação de contas, atualização de processos, criação de proximidade com as comunidades e também na captação de recursos para dar continuidade aos projetos. A comunicação hoje em dia finalmente se tornou um item necessário em todas as propostas. O problema? Com a chegada das redes sociais, vemos como a velocidade de produção de conteúdos, mídias e o apelo ao imediatismo têm colocado os profissionais numa encruzilhada, pois eles precisam ter o domínio de várias linguagens a uma grande velocidade. Mas, com a mesma rapidez com que surgem novas plataformas, também têm aparecido profissionais para se tornarem as vozes de organizações e projetos.


Muitas das vezes, esses profissionais têm um desejo real de levar as mensagens adiante de forma honesta e, às vezes, até poética — uma necessidade clara na produção de conteúdos para organizações do Terceiro Setor. O problema é que esses comunicadores acabam instrumentalizando o público que está sendo atingido pelos projetos. Contam as histórias a partir de suas próprias perspectivas e esquecem de fazer imersões nas realidades que estão retratando, ficando perdidos entre a técnica e a necessidade, sem escutar de fato o que aquela comunidade quer falar. Como nos lembra Bruno Latour em Reagregando o Social, a definição de um grupo é constantemente disputada por seus porta-vozes. Quando nós, comunicadores do Terceiro Setor, assumimos o papel de porta-vozes absolutos sem fazer uma imersão real no território, corremos o risco de trair a própria rede que tentamos fortalecer, transformando sujeitos políticos em meros recursos de linguagem.


A partir desses questionamentos na Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas, estamos tentando fazer uma retomada da essência da comunicação popular. Nosso trabalho já é atravessado pelo conhecimento das comunidades como uma sabedoria que prevalece, e consideramos que isso também deve acontecer nos processos de comunicação. Atualmente, estamos trabalhando em um laboratório de comunicação que estamos aplicando nas comunidades onde fazemos o trabalho de desenvolvimento de tecnologias sociais — como a criação de hortas agroecológicas e galinheiros, entre outras —, trazendo a comunicação também como uma tecnologia social relevante, que transforma e emancipa tanto quanto o próprio manejo da terra.


Nesse laboratório, estamos permitindo que o público possa se apropriar dos meios de produção da comunicação. Nós, comunicadores profissionais, passamos a ser facilitadores que abrem caminhos para que eles se expressem. Ajudamos tanto com as ferramentas intelectuais, para que essa produção de conteúdo seja mais fluida, quanto disponibilizando material físico, como câmeras, microfones e suporte para editar o material que produzem. Entender que a comunicação também é uma tecnologia de emancipação e empoderamento para o território é o objetivo final dessa experiência. Claro que, dentro do contexto da Ocupação Vitória, a gente não precisa falar com essa linguagem acadêmica com eles; permitir que se vejam como pessoas capazes de produzir sua própria voz já traz esse mesmo resultado.


Em conclusão, podemos ver que, para quem trabalha como comunicador do Terceiro Setor, estar na base, se misturando e escutando as pessoas, é tão relevante quanto a sua capacidade técnica de produção e adaptação dentro dos projetos. Os comunicadores devem estar munidos de competências técnicas, mas também da sensibilidade de mudar a língua que falam em cada contexto para estarem de igual para igual. É preciso desenvolver a capacidade de escutar as comunidades com a certeza de que aquilo que elas dizem não é apenas um relato, mas uma sabedoria necessária para que a mensagem seja verdadeiramente real.

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